Fragmentoamorável.blog
As colunas de 3ª ou 5ª categoria ganharão mais e mais práticas, prometam os profetas de sonhos, e quero estar nesse número quando os nomes e as lendas desfilarem sob o firmamento.
O pau tem comido solto, mas quem se vidra na escrevinhação inda tem como ler tudo o que se tece em linhas tão tortas e tadinhas dos seus caderninhos? Angélica Freitas pintou no jornalão, de tanto jornalzinho ou poesia curtir, de ensinar a cachacinha da palavra aos amigos, entre cafezinhos e balanços de rede, histórias e viagens que o jornal apresenta como promessa de “perdidos no espaço”, a oportunidade do contágio entre talentos notáveis sendo finalmente lançados.
O jornalista, além de torcedor com radinho grudado à orelha o tempo todo, ora acompanhando os informes desse mundo como o primeiro a querer saber, ora sonso obsedado pelos movimentos especulativos de políticas demasiadamente comprometidas para dar ouvidos às massas da galera, é meu amigo, e mais, meu pai. Admiro o equilíbrio dessa gente quando espalha com tamanho equilíbrio as palavras, mas também sou filho da mãe universitária, profissional que nem acredita que as palavras reflitam os pensamentos mais profundos de quem as diz, nem deixa de construir um nicho de mercado de trabalho com elas, com abundantes bibliografias bem apanhadas, usadas e sistematizadas, raramente nesta ordem.
Conclusão é morar em São Paulo e ir revertendo os impulsos da hora bundona em linhas que deságuam nalguma zona incerta de leituras citadinas? Ficar ou partir, fazer carreira ou artes, lecionar ou produzir, divulgar ou raciocinar, curar ou agir? Os dados estão rolando, os termos que parecem encapsular as fases da vida vão pipocando na parada da escrita, essa onda toda de letra amarrada no tecido da vida como (ensina(va(?)) o projeto permanente de teatro na escola Plínio Marcos, de um professor de literatura em Escolas da capital riograndense (gaúchos somos todos os platenses, ficaria sabendo na minha infância francesa, com o colega uruguaio).
Introdução é ficha que se toca para lá das conclusões, chamada ao público leitor, seja quem for, a quem possamos querer dar mostras de estar perseguindo uma forma, alguma regra, sobressaindo com ritmos e estilos, demonstrando interesse nas bizarrices do palavrório ou ao menos esforços no sentido de dar o que falar de modo mais comedido.
Quem me apresenta bem é a Ivone, colega ainda crédula nas vias de aberturas estéticas, criativas e literárias para a reflexão e a ação mais inteligente, a expressão dos próprios rebuscamentos mais conseqüentes, a formação de processos dignos das tantas paixões que nos habitam e infestam. O sindicato dos professores do Estado me passara o contato dela, e lá fui eu conhecer a série toda de bandeiras para além daquele horizonte de humanidades encaixotado nas grades escolares, passando de intervenções palpiteiras a apresentações mais preparadas para as rodas de colegas afins de se juntar em auto-defesa e iniciativas de expressão extra-muros. Os encômios são perigosos, mas quem não os aprecia? Se “gênio” é termo com sentido, é por fé na casinha de alguém, no que passa pelas cabeças, no que possamos chamar de esperteza, e mais que isso, no que chegue a até empolgar, quem sabe, entusiasmar também nesse sentido, ensinar alguma coisa, dessas que encontrem morada nos tantos nós que nos dão nas tripas e na cabeça.
Curioso como é mais difícil falar dos professores homens, dos meus bruxos, instrutores, orientadores, referenciais vivos com quem manter relações de alguma boa criação formativa, disciplina teórica e encarnada, real. Bem mais fluída é a fala sobre artistas, compositores, poetas até, escritores, médicos e arquitetos, por exemplo. Já tive mais travas, fixações nos canais canônicos de uma área dos conhecimentos, mas com tantos bombardeios ideológicos indecorosamente disfarçados em terremotos, nessas últimas décadas, larguei os livros um pouco de mão e fui topar algumas conversas ao pé de mesas, alguns grupos de coros, algumas inscrições e outras tentativas de ganhar tempo. Os efeitos podem ter sido imprevisíveis, sempre há quem o prediga. Agora estamos aí, reproduzindo os caminhos entre a casa e a escola, qual cegos forçados a construir na mente estruturas que lhes facultem mobilidade nas dimensões metropolitanas do ser. Em terra de cegos, quem fica vivo sai no lucro.
Amanhã é dia da criança, esta invenção da modernidade para quem a sensibilidade é porto mais seguro para falar do mundo e da coisa real. Salvem as medidas da temporalidade, o materialismo secular, as construções de pauta (desobstruídas, é ocioso dizer), as fábulas do desenvolvimento. São os votos deste que jura ser o mais novo blogueiro das galáxias, antigo debatedor de verossimilhanças, leitor bissexto de línguas estrangeiras e cronista compulsivo de um cancionairo sem música, em preto-e-branco mais seco do que as lágrimas do “bêbado Samba”.
Em boa hora: pensei focar título como “periferia do som” ou coisa que valesse nessa linha, mas saindo da tentativa de ir “mirtridizando”, atochando venenos para cultivar imunidades tacanhas, que era a minha primeira idéia de blog: postar registros textuais que nos tornassem mais cascudos pela alma afora, jogando com dosagens do vício e de vida, pensando apoios para encorajamento de equilíbrio crível, se levantar a cabeça, jogar bola para frente, essas coisas todas do coração, uma medicina alternativa onde se agarrar no desfiladeiro, catarse, epifania e tradição, ainda que à tardinha, filha da mãe necessidade, revirão do olho, ponte de cordas, verbo ao vento, fábrica de sonhos. Para quem cresceu nos assombros elétricos de corridas armamentistas, talvez seja melhor assim. Veremos.
Os estudos: o fio da palavra traz quantas argumentações, tramas, confusões! Temos cortado o nó górdio com a espada alexandrina de escolarizações terceirizadas, e agora que acordamos desgostosos para a inflação da indústria do passatempo, que empresa turística, que empreendimento recreativo poderá especular sobre uma educação integral? Tamanhos espantos, dentro ou fora dos debates, nos fizeram ter um filho, que virá à luz em poucas semanas, segundo a boa fé do nosso médico obstetra. Até então adorava as crianças dos outros, e especialmente das chegadas e dos chegados, bicicleteiros e gremistas, ainda que também careçamos, venhamos e convenhamos, de honrar o nome e a camiseta do time, a começar pelos maiorzinhos. Quem era que falava da arte como o que torna visível o invisível? Que raio de metáfora seria essa? São perguntas retóricas, mas deixem estar, jacarés, que do jeito que vai não fica. Como diz o amigo de Armandópolis[1], não paguei e quero ver. Solonomaiê para vocês também.
[1] Fábio Christiano Duarte de Oliveira é amigo, poeta de musicalidade muito aflorada, funcionário público, carioca, engenhosamente ligado em economia e desobediência civil, e não necessariamente nessa desordem. Está publicando cronicamente por escrito, mas também é dono de vozes marcantes ao vivo, indiscutivelmente um paizão, semeador de espíritos nas intercessões dos apertamentos acadêmicos e sótãos da Avenida do tempo. Jura que está arrumando uns tempos de alimentar seus blogges http://www.fabiochristianoduarte.blogspot.com/ e http://www.fdallas.blogspot.com/, também endereçando suas labaredas verbais em http://www.frincha.blogspot.com/, para a alegria e espantos gerais da torcida (mas como dizem os outros libertários, o processo é lento e o barato, quente).
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